Inés Katzenstein

Acompanhar a obra de Fabian Marcaccio ao longo dos anos é acompanhar uma produção em estado de alerta: uma obra que, embora se atenha a um programa rigoroso, evita expressamente vulgarizar-se. Emseu caso, fazê-lo significaria renunciar a sua força crítica, abandonando uma forma particular da profecia estético-política que Marcaccio veio construindo durante todos esses anos: uma profecia ao mesmo tempo eufórica e sombria, capaz de detectar alguns modos em que as coisas e as imagens operamno mundo contemporâneo, por meio de um trabalho de fusão entre pintura analítica e imagens políticas.

Sua obra propõedois eixos de pesquisa imbricados ou “entrelaçados”, para usar um termo afim com a obra de Marcaccio: a busca de uma radicalização na experimentação com materiais, suportes e formas (procurando tanto nas raízes quantono futuro da pintura) e a visualização de imagens que o artista considera paradigmáticas para definir nossa época. Haveria então uma linha de trabalho que poderíamos considerar mais acadêmica, que conecta sua obra com toda a tradição de reflexão sobre as condições materiais da pintura (desde as pesquisas com os suportes da pintura em Luis Felipe Noéaté as obsessões com a pincelada de Robert Ryman), e outra mais documental, que se abisma nas imagens do terror contemporâneo, nesse misto de política, audácia e poder que podemos denominar “porno-bajón”[2] (pornodepressão); todos instantes de máxima patologia social que o artista escolhe mergulhando na história ouna enormida de dainternet: corpos destroçados, soldados zumbis.

Porém, cada vez mais essas duas linhas de interesse em Marcaccio se absorvem, se corrompem ese fundematé conformar-se em uma mesma coisa. Os exemplos mais claros disso compreendem desde as já clássicas interpenetrações marcaccianas entre símbolos políticos e pinceladas (Conjectures for a New Paint Managment) até as obras mais recentes (Analytical Rage-Paintants) de corpos abjetos ou destroçados, que funcionam esculturalmente mas são produzidos a partir de registros documentais, com técnicas complexas e sórdidas que pareceriam referir-se a uma pintura 3D, feita de uma corporificação de impressões digitais e partes siliconadas, costuras e preenchimentos.

Nada é o que parece e não há pureza possível: a informação da violência soterrada ou superficial que nos definiria como sociedade provém de um mundo cada vez mais desmaterializado, acelerado e idiotizado, no qualo pensamento se deteve e os corpos, segundo Marcaccio, começaram a se desintegrar, a explodir ou a funcionar de maneira póstuma, como em suas animações, em queaparecem em cena esqueletos armados. E, por sua vez, os desenvolvimentos pictóricos ou materiais da obra não são nunca puros, massim existem em um estado de contaminação permanente com problemas provenientes da fotografia, do vídeo, da escultura, do artesanato ou da moda. “A pintura teve suas crises há muito tempo já”, observa Marcaccio. “Hoje, o espaço pictórico pode dialogar com a crise do espaço fotográfico ou com a crise do cinema. Os avatares desses meios estão em mútua conexão; então são produzidos o que chamo de ‘compostos instáveis’.”[3] Assim, vemos que “pintura” e “mundo” são dois termos centrais na problemática desse artista, mas com um valor quase arqueológico; a obra de Marcaccio indica que esses termos não existem mais como entidades fechadas, massão úteis apenas se as sustentarmos como categorias partidas, cruzadas, contaminadas.

Marcaccio é um artista de nicho. Completamente conectado com tudo, pesquisando em um universo feito de milhares de suturas complexas, é ao mesmo tempo uma espécie de solitário na arte atual, uma exceção. “Minha influência de base foi o neobarroco de gente como Severo Sarduy, Néstor Perlongher, Arturo Carrera ou Emeterio Cerro”, aponta. “Deles sempre me interessou a ideia de excesso de texto que produz ruído, a ideia de travestismo. E, por outro lado, Witold Gombrowicz, a forma como conecta e acrescenta detalhes que vão produzindo uma narração que não acontece de ponto a ponto, mas sim de modo errante. Ou Reinaldo Laddaga e sua humanidade totalmente brutalizada, sua cartografia do desastre constante.”[4] Essas escolhas ou afinidades, sua insistência no complexo, acidental e exuberante põem a obra em um desafio especial, já que a tornam adversa em relação ao paradigma conceitual ou minimalista que domina a cena da arte contemporânea. Além disso, sua relação com a chamada “má pintura” como sofisticação baseada no deslocamento e desconforto do gosto e sua predileção pelo vocabulário corporativo como ironia a respeito do sistema dominante somam a seu trabalho uma dificuldade que alimenta sua força crítica.

O horizonte ético dessas obras radica em manter e inclusive sublinhar a complexidade do mundo e suas relações em um gesto que dá a elas o tom de urgência e de antecipação apocalíptica que as caracteriza. Marcaccio é um artista decidido a analisar o presente. E um artista que, com razão, o teme.

 

[1] Blanchot, Maurice. La Escritura del Desastre. Caracas, Monte Avila Editores, 1990.

[2] Luis Alberto Spinetta, em sua canção La Bengala Perdida, 1988.

[3] Conversa com a autora: “Fabian Marcaccio, el taxidermista”, inOtra Parte, no 2, Buenos Aires, outono de 2004.

[4] Idem.

Tradução de Joana Bergman