Martin Hentschel

Fabian Marcaccio nasceu em 1963 em Rosário, Santa Fé, na Argentina, e vive desde 1985 em Nova York. Ele se tornou conhecido por um público mais amplo em 2002 com sua environment abrangente Multi-Site Paintant, apresentada por ocasião da documenta 11, em Kassel. Desde o princípio, Marcaccio circulou entre os gêneros variados da arte. O ponto de partida sempre foi a pintura: a partir dela, ele adentrou de diferentes modos o espaço real, chegando inclusive a instalações monumentais ou obras de dimensões esculturais. Desde o princípio, também, sua pintura foi apresentada midiaticamente: até meados da década de 1990, ele trabalhou sobretudo com a técnica da colografia – uma variação da monotipia na qual as formas em relevo são aplicadas com a prensa sobre o suporte da imagem. Em termos de conteúdo, nessas configurações abstratas pode ser reconhecido um confronto com os paradigmas da pintura moderna. Desse modo, o artista volta sempre a tematizar o traço do pincel como metáfora e relé; ele não se apresenta como gesto genial, mas antes parece imóvel à maneira dos quadrinhos e passa por uma série de mutações. Marcaccio resumiu esses códigos pictóricos, que lhe servem de fundamento para novas buscas de imagens, na publicação 661 Conjectures for a New Paint Management 1989–2004 (2004). Além disso, ele se libertou do tradicional sistema ortogonal da moldura ao modelá-la parcialmente e dobrá-la para dentro da superfície de imagem. Representação e fundo do quadro, desde sempre estritamente divididos em visível e oculto, incorrem em relações surpreendentes nessas obras. Além disso, pinturas e parede interagem fisicamente e criam formações que tomam conta do meio em que são apresentadas.

Desde meados da década de 1990, Marcaccio produz mais e mais obras que operam com fotografias trabalhadas digitalmente; na maior parte das vezes, essas fotografias são tiradas da Internet. A possibilidade de escanear motivos fotográficos para em seguida trabalhá-los nos programas gráficos do computador e, por fim, misturar a eles gesso, tinta e formas de silicone – tudo isso lhe abre um acesso a realidades mundanas. Sem dúvida alguma, ele já anteriormente havia acrescentado sinais e símbolos em suas configurações abstratas; mas agora são agregados motivos que, sem programas de computador, mal poderiam ser representados. Essa técnica permite ao artista trabalhar com saltos dimensionais que antes não eram possíveis.

Em 2000, Marcaccio criou um monumental Environmental Paintant de cerca de 4 metros de altura e 100 metros de comprimento, no qual elementos ilusionistas, um uso pastoso da tinta e aplicações esculturais se fundem visualmente. O trabalho, que leva o título de Paintant Stories, foi instalado primeiramente no Württembergischer Kunstverein, em Stuttgart, e, em seguida, levemente modificado, no Kölnischer Kunstverein, em Colônia. No princípio de 2002, a obra foi adquirida pela Coleção Daros Latinamerica, e, em 2005, exposta no Daros Museum em Zurique. O artista vinculou o neologismo paintant a actant, replicant ou mutant: os termos apontam ao mesmo tempo para uma estrutura imagética que simula processos biomórficos e para o papel ativo do observador. Na realidade, a obra Paintant Stories é tão extensiva, abrange de tal modo o espaço, toma conta do meio de tal forma que a consciência corporal do observador é ativada inevitavelmente. E também por isso a visão passa a se mostrar adequada apenas quando o observador se move diante da sequência de imagens, à medida que são os próprios elementos imagéticos que orientam a velocidade do movimento: staccatos abruptos exigem desaceleração, aplicações pictóricas de grande superfície evocam aceleração. Como equivalente dos movimentos de cunho cinematográfico na imagem, pareados com um ilusionismo em parte até extremo, acaba surgindo da parte do observador a experiência alternada de continuidade e descontinuidade, ou, como o próprio artista diria, de flow e cut – uma experiência essencialmente fílmica, comparável à de movimento de câmera e corte de imagem.

Vistas pelo aspecto do motivo, as Paintant Stories começam de maneira autorreferencial com a representação das substâncias fundamentais da pintura tradicional: tela e tinta, especificadas como textura e pincelada. Mas, mesmo nos espaços intermediários do tecido projetado fotograficamente, o artista integra microimagens de desenhos políticos híbridos, logomarcas de firmas, carros, retratos, armas tecnoides e de novo motivos pornográficos, que, no decorrer da pintura, desembocam em representações, maiores do que o tamanho natural, de símbolos políticos, sexo orgiástico e cenários de violência – um painel selvagem do mundo dos dias de hoje, dominado pela mídia.

A interação entre colagem e montagem configura um dos aspectos interessantes do trabalho. Enquanto a primeira conduz a atenção do observador à realidade material da obra de arte – isso acontece através das aplicações de tinta e silicone colorido –, na segunda é justamente a superfície material que se retira, transformando-se em pura representação, o que o artista alcança de modo convincente na impressão pelo computador. A colagem aposta na ruptura; a montagem, na continuidade. Em Paintant Stories, ambas são fundidas, de modo paradoxal, conforme o próprio Marcaccio explica: “Paintant Stories são indexicais como uma fotografia, mas literais como uma pintura. Elas são rasas, mas hipertexturais. Rápidas como a propaganda, mas lentas como a pintura analítica. Gestuais e caóticas, mas completamente construídas e organizadas. Elas têm expansão espacial, mas é do tempo que se trata nelas. Elas vêm da heterogeneidade múltipla da colagem e se movem em direção a uma espécie de integração contínua, homogênea, das mídias”. Considerados todos os saltos dimensionais que surgem da estrutura digital básica da pintura, mesmo assim no universo polifocal de Marcaccio tudo parece estar vinculado a tudo, mas de tal modo que o observador jamais consegue manter o todo no olhar; o olhar é desfocado ininterruptamente.

Em suas obras mais recentes (a partir de 2011), Marcaccio executou mais uma vez uma reviravolta inesperada: substituiu a rede digital cifrada por redes reais feitas de cabos de cânhamo e cordas de alpinista. Além disso, havia também uma nova materialidade na aplicação da tinta, experimentável fisicamente e feita a partir de uma resina alquídica pastosa e silicone colorido. Ainda que à primeira vista essa pintura também cause uma impressão de abstração, é ao mesmo tempo motivada em seu conteúdo de um modo mais forte do que nunca. Em uma espécie de grande ciranda de imagens, o artista passou a se dedicar ao lado obscuro da mentalidade e da história dos Estados Unidos, trabalhando temas como o desastre de Waco, no Texas, o massacre de Faludja, no Iraque, ou o assassinato de alunos em Columbine, no Colorado – uma série que, por enquanto, não foi concluída.

Tradução de Marcelo Backes